Sou...

A minha foto
Zürich, Zürich, Switzerland
Irrequieta. Curiosa. Criativa. Apaixonada. Versátil. Nasci quando as estrelas se juntaram para me ditarem no destino a Arte. Deveria estar frio... mas eu não me lembro. Escrevo desde que aprendi a fazê-lo. Umas vezes para me divertir, outras por desafio a mim mesma, outras porque as mãos me suam, implorando que o faça. Talvez um dia dê ouvidos aos meus amigos e faça por escrever um livro e o publique. Os textos e fotografias deste blog são da minha autoria, salvo aqueles que estão assinalados em contrário.

Poema




Eventualmente...
Por falta de corda, o relógio de parede vai parar.
O silêncio vai fazer-se pesado.
E a ausência constante.

Eventualmente...
A memória vai enganar-nos,
Dar o desamor por amor
E recolher-se em insónias manchadas de branco.
...
Eventualmente...
Sumiremos em pó.
Sobras e sombras de rugas que não amadureceram
E não se fizeram feto ou futuro.

Palhaço

De que rio?

Rio de ti, rio de mim.
Rio da raiva, do desamor, do jogo, do abandono
Rio da ilusão, do carrossel de tão pouca luz...
Rio de pena, de mágoa, de prisão

Rio da ironia, da busca, da perda...
Rio de ti
E choro por mim


Grilos

-"Que fazes? Que olhas?"
" 'Tou a olhar o céu... está uma noite bonita e daqui vêem-se muitas estrelas"
Encosta-se a mim e envolve-me nos seus braços. Esboça um sorriso leve, distante...

-"Ouves os grilos?"
"Sim... e as cigarras"
-"Não são cigarras. São grilos"
" Faz lembrar as noites de Verão quando era criança..."
Ele suspira. Raramente suspira... e depois o silêncio.


E Então É Isto



O telefone avisa a recepção de uma mensagem. “Jantamos juntos no próximo sábado?”. Pergunta. Com uma semana pela frente até à data marcada, tenho tempo para reflectir sobre o tanto que já vivemos. Tenho tempo para ponderar se seguro pelas rédeas o que quero sentir, ou se de pés assentes no chão, aceito e entrego, sem perguntas ou expectativas. Na corda bamba nunca fui boa acrobata, e houve tempos em que lutei desesperadamente pelo equilíbrio, entre o amor próprio e a sede de ti. Será que foi o hábito de nos acompanharmos que nos atira à saudade? Ou é o conforto pelo que nos conhecemos que não facilita a distância?

Na hora marcada, espero no lugar combinado. Está frio… Desisti do vestido e optei pelas calças de ganga práticas, blusa, blaser e sobretudo. O vento começa a levantar-se agora, depois de um dia solarengo a meio do Inverno. Promete tempestade ou no mínimo chuva forte. Não tenho tempo para reflexões. Ele chega com um sorriso nos olhos e charuto na mão. Entro e arrancamos. Trocamos os galhardetes comuns e conto-lhe os acontecimentos dos últimos dias. Cobra-me pelo telefonema que ficou à espera de receber. Não há romantismos de contos de fadas. Há uma tensão palpável que nos aproxima e empurra para os braços um do outro. Mesmo nos momentos em que ficamos a ver documentários sobre a vida animal, deitados no sofá.

Observo o ritual do abrir da garrafa de vinho, da preparação da refeição. Não perde a concentração, nem mesmo quando me passeio, provocante, à frente dele. É nesses momentos em que lamento a minha pouca resistência e força. Diverte-o saber-se desejado… Desisto. Logo a seguir, vem e provoca-me com um beijo. Trouxe-me limão. O jogo do ataca e recolhe e da indiferença, resulta num desejo crescente; e a malagueta e o vinho são uma combinação explosiva que uso como desculpa para assaltá-lo de surpresa. Não cede. Percebo que hoje não se quer render ou entregar na minhas mãos. Quer que me deixe dominar, que sucumba aos seus caprichos e vontades. Não é pacífico… Pretendemos vencer-nos pelo cansaço e teimosia, viramos costas e damos mil voltas até nos tocarmos de novo.

Amamo-nos em cada beijo, em cada toque, em cada entrega, em cada gemido, em prazer e sorrisos. O limite contido num abraço. Resumido a quatro paredes, um chão e um tecto. Somos mais que um corpo. Adormecemos exaustos e o dia acorda limpo. O frio lá fora continua. Dentro de nós a vida recomeça.


Amar não é Amor

"Houve um tempo em que julguei que amar era sentir falta. Julgava também que dependia da tua existência, do que me fazias sentir...

 Hoje sei que defini-lo é limitá-lo. Reduzi-lo a secções e fragmentos. Não tenho dúvidas de que no teu não amor, foste quem melhor me conduziu e ensinou.

 Não são devaneios... tu sabes que também tenho momentos de lucidez, apesar das dúvidas que luto por desvalorizar.

 E talvez quem menos amou, na ilusão pré concebida de um conceito, tenha sido eu."


 "As Cartas que te Escrevo" , Oceana Bernardez

A Carta

Depois de matar a saudade e saciar o desejo
Depois do amanhecer urgente
Depois de fugir ao teu despertar
Depois do trabalho que me fez feliz
Depois de um dia que se vai

Sabia bem os teus braços a aquecer-me na noite curta e fria que se apressa a chegar...

Te he echado de menos





- Tive saudades tuas- diz


* Ah?


- Tive saudades tuas...


* Baixo o volume do rádio- desculpa, não ouvi


- Tive saudades tuas!!!


E eu penso numa outra forma de o obrigar a repetir o que acabei de ouvir...